O estabelecimento de uma “ética cultural idealmente comum a todos do grupo”[1] é o fundamento para a constituição de comunidades diferenciadas quanto ao contexto social que as envolve. Ou seja, diferentemente das comunidades primitivas ou tradicionais, em que cada membro passava automaticamente a integrá-las a partir de seu nascimento, a constituição de comunidades intencionais[2] se processa em razão de seus integrantes optarem por fazer parte do grupo e de partilhar – e, portanto, aceitar voluntária e conscientemente – os mesmos propósitos eleitos como guias, como pano de fundo, pelo grupo fundador[3]. Neste mesmo sentido, porém com outra denominação, mais vinculada a uma perspectiva analítica de matriz sociológica e política, Mészáros denomina tais agrupamentos de enclaves utópicos de vida comunitária[4].
De acordo com Capello,
As comunidades intencionais existem há muitos séculos, é só pensar nas
infindáveis missões religiosas e nos monastérios, por exemplo, que foram sendo
criados a partir de crenças comuns e de muito trabalho coletivo (que definiam,
para seus integrantes, um cotidiano comunitário bastante peculiar). Mas foi no
século XX que essas comunidades mais cresceram em numero e tipologias. As
ecovilas são apenas um dos vários modelos modernos de comunidades “voluntárias”
que surgiram, principalmente, a partir da descrença ou desilusão nas promessas
do mundo industrializado. Fazem parte deste time as diversas manifestações dos
ideais new age, o movimento dos kibutzim em Israel, as apostas de retorno ao
campo e os hippies dos anos 1960 e 1970 que criaram, cada um à sua maneira,
arranjos de vida comunitária baseada no mesmo território e fortemente
alicerçada em valores comuns, princípios éticos, sonhos, ideais e utopias[5].
[1] CAPELLO,
Giuliana. Meio ambiente e ecovilas.
São Paulo: Senac/SP, 2013, p. 44.
[2] Siqueira (2012), lastreado em Metcalf (2004) e Christian (2007),
apresenta a seguinte conceituação: “Comunidades intencionais são formadas
quando pessoas escolhem viver juntas ou próximas o suficiente para conseguirem
levar um estilo de vida compartilhado, com uma cultura compartilhada e um
propósito comum. Grande parte das comunidades intencionais compartilham um
terreno ou moradia ou vivem em propriedades adjacentes, mas existem algumas que
são não-residenciais. A maioria desenvolve algum modelo de participação e
governança democrático ou consensual. Apenas uma minoria – geralmente
comunidades espirituais ou religiosas – optam por liderança centralizada em um
líder ou um pequeno grupo de líderes.
[3] CAPELLO,
op.cit., p. 45.
[4] MÉSZÁROS,
István. Para além
do capital: rumo a uma teoria da transição. São
Paulo: Boitempo, 2011, p. 995. Disponível em:
https://nupese.fe.ufg.br/up/208/o/para-alem-do-capital.pdf?1350933922. Acesso
em: 30 ago. 2016.
[5] Ibid., p. 46.
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