quinta-feira, 27 de maio de 2021

INICIATIVAS DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL E PRODUÇÃO RURAL ALTERNATIVAS

O estabelecimento de uma “ética cultural idealmente comum a todos do grupo”[1] é o fundamento para a constituição de comunidades diferenciadas quanto ao contexto social que as envolve. Ou seja, diferentemente das comunidades primitivas ou tradicionais, em que cada membro passava automaticamente a integrá-las a partir de seu nascimento, a constituição de comunidades intencionais[2] se processa em razão de seus integrantes optarem por fazer parte do grupo e de partilhar – e, portanto, aceitar voluntária e conscientemente – os mesmos propósitos eleitos como guias, como pano de fundo, pelo grupo fundador[3]. Neste mesmo sentido, porém com outra denominação, mais vinculada a uma perspectiva analítica de matriz sociológica e política, Mészáros denomina tais agrupamentos de enclaves utópicos de vida comunitária[4].

De acordo com Capello,

As comunidades intencionais existem há muitos séculos, é só pensar nas infindáveis missões religiosas e nos monastérios, por exemplo, que foram sendo criados a partir de crenças comuns e de muito trabalho coletivo (que definiam, para seus integrantes, um cotidiano comunitário bastante peculiar). Mas foi no século XX que essas comunidades mais cresceram em numero e tipologias. As ecovilas são apenas um dos vários modelos modernos de comunidades “voluntárias” que surgiram, principalmente, a partir da descrença ou desilusão nas promessas do mundo industrializado. Fazem parte deste time as diversas manifestações dos ideais new age, o movimento dos kibutzim em Israel, as apostas de retorno ao campo e os hippies dos anos 1960 e 1970 que criaram, cada um à sua maneira, arranjos de vida comunitária baseada no mesmo território e fortemente alicerçada em valores comuns, princípios éticos, sonhos, ideais e utopias[5].

 

Na atualidade, a constituição de comunidades intencionais vem representar a tentativa de instituir, conscientemente, uma modalidade alternativa de vida; a qual se justifica diante das disfuncionalidades sociais (males do mundo atual) que decorrem do sistema socioeconômico que prepondera ao nível global. Ao afetar a sanidade física e mental, tanto ao nível individual quanto coletivo, o regime social e econômico hegemônico da atualidade dá origem a pretensões de escape daquelas disfuncionalidades que lhe são inerentes. Entretanto, como mencionou Capello, ao longo da história muitas comunidades intencionais foram instituídas, cada qual em decorrência das vicissitudes coletivas peculiares a cada período histórico.


[1] CAPELLO, Giuliana. Meio ambiente e ecovilas. São Paulo: Senac/SP, 2013, p. 44.

[2] Siqueira (2012), lastreado em Metcalf (2004) e Christian (2007), apresenta a seguinte conceituação: “Comunidades intencionais são formadas quando pessoas escolhem viver juntas ou próximas o suficiente para conseguirem levar um estilo de vida compartilhado, com uma cultura compartilhada e um propósito comum. Grande parte das comunidades intencionais compartilham um terreno ou moradia ou vivem em propriedades adjacentes, mas existem algumas que são não-residenciais. A maioria desenvolve algum modelo de participação e governança democrático ou consensual. Apenas uma minoria – geralmente comunidades espirituais ou religiosas – optam por liderança centralizada em um líder ou um pequeno grupo de líderes.

[3] CAPELLO, op.cit., p. 45.

[4] MÉSZÁROS, István. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 995. Disponível em: https://nupese.fe.ufg.br/up/208/o/para-alem-do-capital.pdf?1350933922. Acesso em: 30 ago. 2016.

[5] Ibid., p. 46.

Nenhum comentário:

Postar um comentário